A policia bate, espanca, mata muito mais a minha cor do que a sua

Eu tô falando com vocês que estão ávidos pela redução da maioridade penal. Eu tô falando com vocês que não veem cor, que não veem classe social. Que querem justiça independentemente de cor ou classe. Vocês precisam entender de uma vez por todas que se vocês se negam a enxergar e negam todo um contexto social que a polícia não nega. Alias, a polícia sabe direitinho a quem abordar, como abordar, e o que fazer quando a abordagem dá errado.

Do que vocês estão falando? Com que direito lamentam a morte da Claudia? (Sim, Da Claudia. Não, não era minha amiga, conhecida, mas era preta e por isso era minha irmã). A Claudia morreu com a autorização de vocês. A Claudia morreu sob os seus olhares, as suas súplicas por justiça, morreu pelos desejos de vocês, morreu do jeito que vocês gostam: TORTURADA, ESFOLADA, COMO UM ANIMAL.

Ué, não é à policia a quem vocês dão o aval todo santo dia de matar? De espancar? De tratar igual a lixo quem é pretx, pobre, periféricx? Não é reverência à policia que vocês fazem quando ela mata? Não é pra ela que vocês acendem vela quando ela entra no morro e mata meia dúzia “que tinha envolvimento com o tráfico”? Não é dos jargões dela que vocês se utilizam quando se orgulham de “cumprir uma missão”? Não foram vocês que viram Tropa de Elite e acharam que era uma grande homenagem ao BOPE?

Ou vocês são doentes ou são hipócritas. E qualquer que seja o problema, ninguém está de boa fé.

Lembram quando a polícia matou asfixiado o Sandro do Nascimento? Quem, Gabi?Quem é esse cara? Vou refrescar a memória de vocês. Sandro era cria da Nova Holanda, na Maré. Antes de nascer, o Sandro foi abandonado pelo pai. Aos seis viu a mãe sendo assassinada. Mais velho, se viciou em crack. Anos depois sobreviveu à Chacina da Candelária. Outros anos depois, morreu asfixiado pela policia, dentro do camburão, depois de ter sequestrado o ônibus 174 e não ter matado (acredito que nem atirado em) ninguém.

Os policiais que mataram Sandro foram absolvidos sob a alegação de que o mata leão que aplicaram nele não tinha a intenção de matar. Pois é, lembram quando isso aconteceu? Vocês que hoje se indignam com a morte da Claudia bateram palma, acharam bonito quando a policia matou o Sandro, porque afinal de contas “bandido bom e bandido morto”, não é? Ora, acordem, seus hipócritas, foi o aval de vocês – se aliviando com a morte do Sandro – que autorizou a policia a tratar A Claudia como eles trataram. Mesmo depois de a própria policia ter atirado nela! Aliás, a bala que atingiu Claudia também foi autorizada por vocês!

Cade o Amarildo? Que fizeram com o corpo dele? O Amarildo tinha que estar era na consciência parca de vocês porque a policia só fez o que fez porque existe uma população que acha bonito entrar na favela e “passar o ferro na bandidagem”. O governo e a policia conhecem tanto esse raciocínio pequeno que usam exatamente o argumento que vocês vão comprar: o Amarildo “era” bandido também. Facilitava a fuga de traficantes… Não foi isso que disseram? Aliás, foi isso que eles também alegaram para ter atirado na Claudia.

Fico me perguntando, cadê aquele coxinha neonazista, já aludido em outro texto meu, que estampou sua timeline com dois seguranças mortos por bandidos, clamando pela justiça com as próprias mãos? Me perguntei e chequei: não, ele não estampou sua timeline com a foto ou o video da Claudia toda arrebentada, ensangüentada. Vai ver que pretx, pobre, faveladx e periféricx não merecem compadecimento e revolta. Tampouco a morte delx merece ser vingada como dá a entender a decisão do Ministério Público Militar de soltar os policiais envolvidos no caso que demanda medidas extremamente enérgicas.

Eu tô falando com vocês que estão ávidos pela redução da maioridade penal. Eu tô falando com vocês que não veem cor, que não veem classe social. Que querem justiça independentemente de cor ou classe. Vocês precisam entender de uma vez por todas que se vocês se negam a enxergar e negam todo um contexto social que a polícia não nega. Alias, a polícia sabe direitinho a quem abordar, como abordar, e o que fazer quando a abordagem dá errado. A policia sai todos os dias do quartel sabendo exatamente que se nasceu preto e pobre já está “errado”. Incentivando a ação da policia, vocês estão sendo tão cruéis e desumanos quanto ela. Eu tô falando com vocês que são incapazes de se compadecer com a dor de uma família e tentam indecentemente minimizar a ação da PMERJ.

Eu tô falando com todos vocês.

E sabe por que eu estou aqui escrevendo? Por sorte! Por pura sorte! Eu poderia ser a filha da Claudia ou do Amarildo, poderia ser a irmã ou a namorada do Sandro. Eu poderia ser só mais uma voz calada na favela. A Claudia poderia ser a minha mãe… Poderia ser eu a ser confundida com bandido ou a ter que levar minha mãe pro hospital depois de ser alvejada duas vezes pela policia. Estou viva, mas até quando? Porque a pobreza, o analfabetismo, a violência e o estupro têm a minha cor. Porque a policia bate, espanca, mata muito mais a minha cor do que a sua. Sorte, porque na esmagadora maioria das vezes, o determinismo social sorri é pra minha cor.

Enquanto vocês continuarem a dar aval pra polícia matar bandido, bater em menor de idade, humilhar morador da favela, invadir comunidade, essa mesma policia vai continuar a matar na Candelária, na Nova Holanda, na Congonha, na Rocinha, no Flamengo, na Lapa, em São Paulo, em Brasília, Claudias, Amarildos, Sandros, Gabrielas, Pedros, Marcelos, Jades, Lourdes, Marias, Leandros.

7 comments
  1. Gabi, mais uma vez um texto foda!!!

    Recentemente, discuti com meus alunos o que havia acontecido com o Amarildo e como a mídia coxinha faz parecer que ele, de fato, era envolvido com o tráfico. Minha surpresa foi ouvir de diversos alunos (jovens e adultos que voltaram aos estudos após muito tempo longe da escola, gente da minha cor, da sua cor) que polícia tem que matar mesmo.
    Seu texto, com sua licença, será usado em uma próxima aula, uma vez que você expressa de maneira VERDADEIRA o que gera essa barbárie e perpetua o racismo nesse país que se diz de todos e todas.
    A partir do momento em que a sociedade aplaude as ações violentas do BOPE, da ROTA e da Militar aqui em SP e em outros estados, estaremos todos condenados. Talvez o próximo seja um de nós.
    Abraço

    1. Juliana, obrigada pelas palavras!!!! E eu quero saber como foi a receptividade e o que saiu da discussão com o texto, viu? Não deixe de me contar!! beijos!!

  2. Nossa… li sem respirar! Parabéns Gabi!
    Me pergunto aonde estão aqueles que saem chorando do cinema ao ver 12 anos de escravidão.
    No cinema eles se emocionam…. Mas, agora se contradizem defendendo a postura da polícia!

    1. E você está certíssima, Carolina. Ótima reflexão: nós conseguimos criar empatia por um escravo como o do filme talvez por causa da falsa sensação de ficção (já que o filme é baseado em uma história real). Mas quando a coisa de fato acontece, a alteridade já não tem mais lugar: é a selva e a lei do salve-se quem puder.

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